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domingo, 06/04/25
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Sandra Faraj: mulheres têm muito espaço a conquistar

Ex-administradora do Lago Norte e candidata bem votada a distrital na eleição passada, Sandra Faraj acredita que as mulheres ainda não conquistaram seu espaço como deveriam ter dentro da política. A eleição da presidente Dilma Rousseff é considerada por ela um momento importante, mas elas ainda podem mais. “Em alguns momentos nós não somos vistas como capazes. É como se nós estivéssemos sempre à sombra do homem, como se a gente puder ir sempre até certo ponto, já delimitado.

Tanto é que, no mundo corporativo, poucas mulheres têm destaque, assim como no mundo empresarial, jurídico”, afirmou. Apesar de lamentar a pouca participação feminina, Sandra acredita que estão aumentando, no Distrito Federal, as chances de se ter a primeira governadora eleita para um mandato integral — Maria de Lourdes Abadia já administrou a capital, mas assumiu como vice de Joaquim Roriz, para completar seu mandato. Sandra  é hoje vice-presidente regional do novo Solidariedade. Na eleição passada recebeu 11.091 votos, ficando acima de quatro distritais que se elegeram.

Por que existe pouca participação das mulheres na política?

Estamos com direito de voto há 82 anos e há 80 foi eleita a primeira brasileira deputada federal. Apesar desse tempo todo, acontece que nós ainda carregamos o estigma da cultura da mulher criada para assuntos domésticos. A mulher ainda carrega esse ranço. Embora uma ou outra ainda se destaque e tenha relevância maior na sociedade e na política, nós ainda carregamos esse carma, essa cultura das atividades domésticas e familiares. Por isso acho que existe o preconceito de que nós não seríamos capazes de levar a dupla ou tripla jornada, embora já tenhamos provado que somos capazes, sim. Também existe o agravante de que a mulher tem que querer, porque tem capacidade para estar dentro da política. A mulher precisa querer sair um pouco dessa rotina para a qual ela foi criada, afinal somos geradoras de vida, temos a missão de gerar filhos, algo dado somente a nós. Os filhos se amamentam em nós, do nosso corpo. Mas a mulher também precisa sair do casulo e abraçar as causas sociais.

De onde se origina a dificuldade para a mulher se fazer representar? Da organização dos partidos políticos ou de quem vota?

Acho que a sociedade ainda tem um certo preconceito com a mulher. Em alguns momentos nós não somos vistas como capazes. É como se nós estivéssemos sempre à sombra do homem, como se a gente puder ir sempre até certo ponto, delimitado. Tanto é que no mundo corporativo são poucas as mulheres que têm destaque, assim como no mundo empresarial ou no jurídico. Existe uma cultura que subsiste, como se a mulher não pudesse ainda estar nesses cargos de maior projeção, em várias esferas, senão em todas.

O que as mulheres conseguiram acrescentar ao mundo político desde que conquistaram  maior espaço?

A mulher tem a mesma capacidade do homem, mas tem uma maior sensibilidade para as causas sociais. Ela tem uma inclinação maior para sentir a dor do próximo. Eu percebo que a mulher tem isso e é extremamente capaz. A mulher consegue cuidar da casa, dos filhos, estudar, fazer faculdade, colocar comida para dentro de casa, trabalhar, trazer recursos e pode estar envolvida com as causas sociais, o que a rodeia. As mulheres têm tanto para contribuir à política quanto o homem também tem. Não existe dificuldade. Muitas vezes, o homem tem um olhar mais genérico e muitas vezes a mulher consegue olhar as árvores de uma floresta, enquanto o homem vê a floresta como um todo. São visões diferentes, monofocal e bifocal. Existe uma paixão e sensibilidade da mulher, então ela pode contribuir tanto quanto o homem, da mesma maneira. Não existe uma competição sobre isso. Sei que existe uma Proposta de Emenda Constitucional tramitando para determinar maior participação da mulher na representação política. Está nas comissões temáticas da Câmara e no Senado. Atualmente, as mulheres são só 9% dos integrantes da Câmara e 13% do Senado. E são cerca de 10% dos cargos eletivos ocupados por mulheres.

A eleição da presidente Dilma foi um ponto de mudança da participação feminina na política?

Acho que sim. Temos aí um marco, a partir do momento que temos uma presidente mulher e ela também fez questão de colocar mulheres em cargos de alta relevância, como as ministras que ela nomeou. Isso é um ponto muito positivo porque, independentemente da posição partidária, se a gente é a favor ou contra o partido dela, não quero nem me posicionar a respeito disso, porque tenho minhas convicções, mas a postura dela, de mulher forte como tem mostrado todos os dias, governando um país grande como o nosso, mostra que estamos evoluindo. Precisamos lembrar que este não é um país fácil de governar, porque tem todo tipo de problema social. Então, ela tem se mostrado muito esforçada e competente.

Existe uma exigência de 30% de candidaturas de mulheres. Isso chega a ajudar efetivamente o acesso das mulheres a essa disputa?

Não vejo dificuldade. É preciso ser transparente. Quando eu fui lançada em 2010 para participar do processo eletivo, não tive dificuldades de entrar em um partido e ter legenda. Hoje pela necessidade de se cumprir essa regra, eu acho mais fácil a mulher ser aceita. Creio que a essa regra veio para ajudar.

É possível esperar que as mulheres tenham mais destaque nas urnas esse ano?

Tenho observado o cenário político e não estou vendo muita diferença ainda, não. Não tenho visto muitas mulheres se levantarem com as bandeiras das causas que interessam à população. Só consigo ver uma ou outra mulher com relevância maior, de militância, que a gente pode ver como uma figura expressiva nas urnas. Mas acredito que nós ainda não estamos no nível que precisamos estar, estamos, infelizmente, subrepresentadas.

Na Câmara Legislativa são poucas mulheres, mas um fato curioso é a oposição ter se mostrado predominantemente feminina. Como você avalia essa situação?

Eu não acho que seja uma oposição feminina. É uma oposição partidária mesmo. Não se veem causas do gênero feminino sendo levantadas. Algumas por serem de oposição mesmo, da família do ex-governador, outra que fazia parte daquele grupo. É uma questão basicamente partidária.

Com a oposição pequena, o barulho que as deputadas fazem acaba tendo destaque. Isso é positivo ou negativo?

Independentemente de ser oposição ou situação, o que mais vai haver relevância para nós na sociedade são os projetos que estão sendo apresentados, é a avaliação sobre qual o resultado do mandato de cada uma de nós, mulheres. A gente se destaca por aquilo que a gente consegue aprovar na Câmara. Não o fato de ser oposição ou situação. Isso foi a conveniência delas no momento. O que nós temos que observar, o que tem de chamar atenção da sociedade é o que foi a atuação delas como deputadas, o que elas trouxeram de resultado para a comunidade, para aquele grupo de pessoas que elas representam.

O DF é uma das unidades da Federação que até agora não conseguiram eleger uma governadora para mandato completo. Isso ainda está distante?

Acredito que é possível, sim. Existem dois nomes que querem se levantar como candidatas. Uma delas tem mandatos bem reconhecidos e a outra tem um legado, uma herança política expressiva. Só que hoje a oposição está bastante dividida, não está com uma trajetória clara. O posicionamento das chapas, dos partidos ainda está indefinido. Que eu me lembre, essa é a primeira vez que duas mulheres tentam se lançar como candidatas a governadora aqui no DF. Acho que está chegando perto. Estamos começando a nos aproximar dessa realidade de ter uma governadora. Acho que é bem possível. Não vou dizer que vai ser agora ou em 2018. Não sei, mas agora está começando.

É um cenário atípico neste ano, com poucas definições em relação às alianças políticas?

Realmente, está bastante obscuro. Quando você olha para uma chapa e pensa “essa chapa vai ser de oposição”, você acaba descobrindo que o vice pode ser candidato ao Senado em outra chapa e etc. Estou na esperança de que no mês de maio agora se acalmem e se posicionem com clareza. A única chapa que nós temos certeza é a do atual governo. O restante está conversando muito, indo para um lado e para o outro e está, de fato, indefinido.

Isso é bom ou ruim?

Eu diria que é ruim, porque vai acabar que as decisões de coligações vão ser definidas muito em cima da hora nas convenções. Isso pode atrapalhar boas decisões. Não gosto das decisões tomadas no calor da pressão, aquela coisa dos últimos minutos do segundo tempo. Como sou administradora de formação, eu costumo brincar que tenho um fluxograma e um organograma dentro da minha cabeça. Então gosto de tomar decisões extremamente bem calculadas, bem pensadas e a gente não sabe como isso vai ser.

Ainda sobre a Câmara Legislativa, como não estão despontando lideranças femininas, é possível que esse número de deputadas permaneça o mesmo ou que diminua?

O que eu falei é que não há muitas mulheres novas no cenário atual se propondo a serem candidatas. Você vê uma ou outra que tem tentado. Acho que é bem capaz de aumentar, do número atual, no máximo 15%. Acho que a nossa cultura de mulheres ainda está nos bastidores das decisões.

A partir de 2015, o que deve ser prioridade ao governo?

Como eu mencionei, eu gosto de planejamento. A melhor coisa a ser feita logo no começo de 2015 é um levantamento das áreas críticas da cidade. Uma apuração realmente minuciosa das questões de habitação, saúde, segurança. E pensar em um planejamento com no máximo dois anos para ser executado. Isso é a primeira coisa que nós precisamos fazer. Não podemos ter um governo reativo, que só age diante dos problemas. Temos que ter um governo voltado para o planejamento, proativo, de quem está governando uma cidade para o futuro e se antecipa aos problemas, possibilitando o desenvolvimento da cidade. Se toda vez um órgão para acudir uma situação e não deixa que as outras áreas continuem esse desenvolvimento. Isso é muito prejudicial.

Fonte: Jornal de Brasília

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